Quem me contou foi uma meretriz, depois de
bebermos três ou quatro cervejas a mais, em uma mesa pensa e de pernas curtas,
rodeada de homens fanfarrões de salários mínimos, em um bar sujo.
Após beber um gole da cerveja barata e com a língua
sambando entre os dentes que lhe restava, a puta arruma os peitos numa vã
tentativa de deixá-los retos e erguidos, expondo ainda mais o quanto eram
caídos, e diz entre saliva e batom:
A Marisa, e quem me contou é de total confiança,
estava construindo uma casa, como quem constrói um túmulo. Dizia que jamais
mudaria novamente, que seria aquela sua última estadia, e que nela criaria
raízes como uma árvore milenar.
Todos que conheciam Marisa, sabiam do seu mau
humor – a narradora batia na mesa enquanto falava – e por isso mesmo foi
sozinha na vida, nunca teve um amante que lhe quisesse mais que uma hora, que
ainda lhes custavam cinquenta pratas.
A criatura falava da morte como sendo sua melhor
amiga, quem lhe conhecia sabia, que o que ela mais gostava de dizer era que
desejava a morte, a pobre nem quando gozava sorria, os homens que tinham, saiam
cabisbaixos, com total decepção.
Quando Marisa terminou sua casa, agendou a
mudança, estava um dia nublado, e não é que em meio a toda aquela confusão de
subir mobília no caminhão, ela deixou a porta da sua antiga casa aberta? E
imediatamente correu rumo a casa, atravessando a rua sem olhar para lado algum.
De cheio, o carro que vinha numa tentativa de
pegar o semáforo aberto, atingiu a mulher e nem parou para socorrer.
Dizem , que ela estirada no chão, estava quase
morta, mais ainda podia sorrir, e um ou outro disse para ela e para a platéia
que se formava:
- Irei ligar para a ambulância!
Marisa, no entanto, arranjou força num sei de
onde, e ainda sorrindo murmurou:
- Leve-me para minha casa, o dia mais feliz de
minha vida é hoje.
E assim morreu, engolindo o próprio sangue.
A quenca que contava a história, com os cotovelos a
mesa, bebeu mais um ou dois copos de cerveja antes de limpar a boca com a ponta
do seu vestido, deixando a mostra sua calcinha encardida.
O Pai era um militar, homem de grande carreira, o rosto marcado pela seriedade, aquele tipo de homem que muitos temem cumprimentar, casado há muitos anos, dedicou-se exclusivamente a sua família, mulher e filho, uma legítima dona de casa e um rapaz que a todo custo o pai tentou inserir o desejo pela carreira militar, mas o menino sempre se interessava por outras coisas.
Uma família tradicional, o pai ausente e a mãe dominadora, todas as vezes que João Carlos resolvia sair e ficar mais que uma hora fora de casa, a mãe exigia detalhes minuciosos de onde, e com quem ele estaria, por sorte o menino não gostava muito de sair, mas o militar que era tão atencioso com os mais pequeninos detalhes da sua tropa, ou de uma estratégica qualquer, deixava muitas vezes de perceber os detalhes de seu filho.
Quando João Carlos completou 17 anos, o pai comprará uma casa nova, iam ter mais espaço, vizinhos calmos e uma vista linda, com plantas no jardim e uma praça para se ler aos domingos.
Os planos estavam prontos, e os detalhes da nova moradia quase acabados, se não fossem algumas reformas que se faziam necessárias, mas tudo estava adiantado, o progenitor já acertará com uns oitos homens, enquanto um ia pintando as janelas, outro pintando as paredes, uns dois arrumando as telhas quebradas, e mais alguns espalhados por todos os cantos, fazendo coisas diversas.
Em um intervalo, quase todos pararam pra comerem algo ou tomar um café, um deles perguntou para o chefe daquela família que habitaria a nova casa, sobre o mato que crescia sem parar por todo o terreno, se um deles poderia dar um fim naquilo.
– Não – a resposta seca do militar, fazia com que os demais silenciassem imediatamente – Não, deixem esse capim para o meu garoto, quero que ele aprenda serviços de homem, afinal a vida não é fácil, ele tem que aprender em casa o que um varão tem que enfrentar nessa vida, já falei com ele para que providenciasse uma máscara e um par de luvas, para aplicar um veneno que comprei, um veneno muito bom que extinguirá esse mato todo.
O homem ainda falava quando entrou João Carlos, um par de luvas na cor vermelha, feitas de cetim, cobriam todo o antebraço ultrapassando os cotovelos e uma máscara de lantejoulas púrpuras enfeitava seu rosto.
A imagem do rapaz fez alguns engasgarem, mas todos que conseguiram prender o riso, o fizeram de cabeça baixa, no entanto o pai, como se em sua frente estivesse um legítimo capinador usando os EPIs corretos, orientou o filho como aplicar o veneno na erva daninha, e nem percebeu que a suas costas muitos abafavam o riso.
Paulo adquirira sua cicatriz ajudando o pai no trabalho, dividia a sobrancelha esquerda ao meio, descia pelo canto do olho, passando por toda a bochecha, e terminando no queixo, bem abaixo da mandíbula, um corte tão profundo que sua marca se perpetuou.
O rapaz ficara por mais vinte dias sem ter coragem de olhar seu reflexo no espelho, apenas sentido o estrago que cometera contra a própria face com o tato.
No dia que tomou coragem viu-se refletindo no espelho e não se reconheceu! Olhou por alguns minutos e se manteve firme, não cedeu ao choro, como se era de esperar de um homem, imposto tanta masculinidade, todavia, internamente se esvaiu em lágrimas como uma donzela que sofre de solidão, e desse dia em diante, era cabisbaixo, um semblante triste, e um olhar distante.
Acontecia de vez enquanto ver refletido em algum vidro espelhado, ou uma poça de água da chuva, o seu rosto desfigurado, sentia o coração pequeno e uma vontade súbita de não existir, as vezes tarde da noite, passava a mão em seu rosto só para ter certeza, antes de dormir, que tudo o que ele já foi um dia, não existia mais.
Olhando fotografias antigas, via o rosto do belo rapaz que já fora, e não tirava fotos novas, os anos marcados apenas na memória, e sem registro em vídeo ou papel.
Acontece que um dia indo ao trabalho, viu uma bela moça, não ousou achá-la de bonita, sequer teve coragem de olhar o seu rosto, mas o destino resolveu intervir, e dia após dia, eles sempre se encontravam, e surgiu uma amizade que só o tempo é capaz de alimentar.
Ao passo que sempre se encontravam, na fila do supermercado, no cinema, no teatro, no posto de gasolina, numa festa de amigos em comum, e ocasionalmente na igreja, a aproximação era inevitável, e ambos começaram um conversa que sempre tinha continua finalidade nos novos encontros que o acaso planejava para eles.
A amizade se tornou amor, e não foi Paulo que tomou coragem de roubar o beijo que iniciou o namoro.
O casal agora andava junto e não dependiam mais do acaso para se encontrarem, e sendo o amor, o mais estranho dos sentimentos, eles desejavam um ao outro, e nunca conversaram sobre a cicatriz que marcava macabramente o rosto do rapaz.
Na primeira noite em que o casal ficara só, e involuntariamente, se viam envolvidos com o sexo, a moça confessara repentinamente:
- Essa sua cicatriz me excita.
O coração do pobre Paulo quase não cabia na caixa torácica, ele sentiu medo, receio e ânsia, não queria falar sobre sua cicatriz, não naquele momento, não com essa moça que lhe arrancava o fôlego de tanto desejo, não na noite em que se entregaria aos braços de sua amada, mas o comentário dela não passaria despercebido e seu corpo gelara a tal ponto e frígido que estava, congelou o tempo! Passavam os segundos como horas, e a moça percebendo que ele estava atônico, iniciou o coito, quase que sozinha.
Em dado momento, quando o rapaz estava mais relaxado, e os movimentos do coito eram reflexo do desejo eminente, a moça deitara sobre seu corpo e com a língua, passara suavemente em toda a cicatriz, e nesse momento ambos gozaram.
Daquele dia para frente, não houve uma só noite em que o casal copulava-se, que a cicatrize não fizesse parte do momento mais importante do sexo.
Aos quatorze anos Bárbara lera a história de Tereza mania de limpeza, de cara se identificara. Ela era um menina fresca, diferente de suas amigas, nunca tomara banho de chuva, e nem brincara na lama, em dia de missa levava consigo sempre um lenço e antes mesmo de sentar na cadeira lustrava, às vezes por tanto tempo que uma velhota ou outra resmungava.
A menina sentia-se limpa, não comia fora de casa, não bebia água em copo alheio, e na rua só saia com uma ajuda do pai, pois não gostava de sujar os sapatos com a terra que soprava a leve brisa.
Quando fez seus dezenove anos, começara um namoro arranjado, era de bons olhos para a família que a menina logo se casasse com um rapaz de tão renomada família, ele um galã de novela de rádio, um tipo romântico que não visitava uma única noite sem trazer, tanto para a futura sogra como para sua amada, rosas! Às vezes vermelhas, às vezes brancas, e em algumas ocasiões amarelas.
O namoro que inicialmente era de portão, aos poucos se adentrou até a sala de estar, e não tardou muito, os pais deixavam o casal sozinho por alguns minutos, oportunidade perfeita para beijos apaixonado que nunca aconteceram, ele nem mesmo tocara as mãos da moça sem as luvas, e uma única vez sentiu a fineza de seus cabelos. A menina que de tão cândida e pura, lembrava uma santa, e em noites que o rapaz se sentia mais ávido, investia se aproximando dela um pouco mais, e Bárbara sempre limitava a distância, justificando que era hora de dormir, na verdade faltavam muitas horas antes de dormir, mas obediente o rapaz partia.
Em certa ocasião sua mãe investigou sobre o namoro e os limites de aproximação, sempre começava com uma moral ensinada pela sua avó.
- Como sua santa avó sempre dizia –iniciava a tormenta da mãe – não se deve deixar o rapaz abusar de nossos corpos antes do casamento, um beijo na testa por noite já suficiente, se quiser mais intimidade uns dois beijos, sendo um na mão e outro na face, e não mais que isso, uma mulher tem que se dar o respeito.
E a moça, para total espanto até mesmo de uma mãe conservadora, anunciava que seu futuro marido nunca a tocara em parte alguma, nem na mão, nem no rosto, e que ela acha de uma sujeira imunda o beijo. A mãe olha intrigada, mas totalmente satisfeita consigo mesmo pela educação da filha.
Os dias se passaram e logo chegou o casamento, a noiva quebrando todas as regras, estava à porta da igreja muito antes da hora marcada, mas ninguém sabia o paradeiro do rapaz, alguns diziam que tinha o visto bebendo no botequim, outros diziam que estava atrasado devido a algum problema de saúde, mas em boca pequena corria o boato que ele deleitara-se na noite passada em corpos nus de prostitutas e que até a hora do casamento, a bebida e a farra de cópula, não o deixara acordar, e que nem um dos seus parentes sabiam onde havia ocorrido a tal imoralidade.
Depois de quatro horas esperando em frente a igreja, a menina com seu vestido branco, chorava aos braços da mãe e aos gritos e ameaças de morte, exercidas pelo pai descontrolado e se não fosse o padre muito amigo da família da noiva e essa família, não fosse tão influente na cidade, ele próprio teria desistido de celebrar essa união, mas ficou firme perante o altar entoando hinos de louvores de hoshana.
Ao fim da espera, o pai decidido a acabar com a vergonha, liberou que os criados e os serviçais, abrissem as portas do grande barracão, onde seria servido o jantar, e que todos da cidade pudessem se deleitar no manar que seria servido, e assim se sucedeu.
Todos na pequena cidade comeram e beberam a custa da desgraça alheia, enquanto o pobre homem honrava-se sobre o poder de servir comida de boa qualidade a tanta gente, enquanto isso a mãe e a ex-noiva, deitavam-se no quarto a espera do tempo passar.
A mãe não tardou a adormecer, vencida pela vergonha e piedade que sentia pela filha, enquanto Bárbara, com os olhos abertos, via toda luz que entrava.
Resolveu, ainda vestida de noiva, pular a janela que dava acesso a grande fazenda do pai.
A menina em seguida pulou descalça, sentido pela primeira vez na vida, o chão sujo, úmido e frio, a cerca que separava a parte nobre da fazenda da parte de mãos calejadas e casas populares dos trabalhadores rurais, que serviam quase como escravos, as lavoras fieis do senhor seu pai, rasgando vez por outra partes do seu vestido que horas antes era puro e alvo.
Chegando até onde era a pocilga, e vendo um homem robusto de roupas sujas cuidava dos porcos e alimentava-os antes dele próprio comer em sua casa, lavagem, tão semelhante a que ele dava aos animais, a moça não esperou o rapaz falar, arrancou-lhe a própria roupa, despiu-se e avançou com desejo, desejo de quem trava luta pela própria existência, e parte da roupa do caboclo ela também rasgou.
O moço que não sabia o que estava acontecendo, cedeu aos desejos carnais, uma vez que ele mesmo tivera em seus braços poucas mulheres e nenhuma delas cheirava a água de banho, e nem mesmo tinha pele macia.
A moça deitou-se sobre o caboclo, e em seguida rolou no chão imundo, sem roupa, sentindo o músculo do seu amante invadir o seu corpo, e o corpo pesar suado sobre o seu, ela sentia seus cabelos se cobrirem de lama, que era a mesma lama que os suínos usavam para se refrescarem, parte da comida dos animais que escorria dos cochos, invadiam o coito do casal que se lambuzavam em prazer.
Ao fim do último impulso do rapaz sobre o corpo de sua fêmea, ela deitada no chão recoberta de lama, cheirando a urina de suínos, e sentindo o gosto da vasa que entrava em sua boca pelo canto, ela gargalho alto, tão alto que todos na festa ouviram, a cidade silenciou-se enquanto Bárbara se sentia mais limpa do que nunca!
Olá pessoal, andei um tempo sem postar no blog, estive escrevendo um livro, meu primeiro livro, agora finalizado, estou procurando uma editora, em breve espero encontrar, enquanto isso não acontece, voltarei a escrever aqui.
O título provisório é "A Claudicação do Anjo Gabriel" uma história baseada nos nefilins, seres gigantes descendentes dos anjos com mulheres humanas, com base em Gênese 6:4
“Porque a vida é assim desejo que tenha inimigos e que pelo menos um deles seja justo”
Não imaginei que enfrentaria uma tarde tão quente, mas estava lá.
Um sol que parecia queimar cada célula da minha pele, eu sabia que essa terra era quente, mas nunca que seria escaldante, a tarde parecia não passar e para piorar o meu trabalho era entediante, e a rotina não me permitia fazer nada além do que era predestinado.
Certa vez ouvir dizer que a internet era o novo deus, achei curiosa essa colocação, mas por fim a explicação foi ainda melhor, dizia, a tal pessoa, que a característica de um ser, se tornar “deus” era ser onipresente, e a internet é onipresente, ela está em todos os lugares, mas isso nada tem haver com minha história, é apenas um ponto que me fez refletir porque naquela tarde a onipresença era tão verdadeira.
Eu sentia em cada parte do meu corpo e esse tipo de pensamento sempre vem na minha cabeça, ora por culpa da minha função que é muito chata, ora porque realmente eu penso muito.
Mas eu estava falando mesmo era da tarde onde o sol ficou mais perto da terra, o suor descia em minhas costas, eu sentia arde os olhos, a claridade me cegava momentaneamente, pra piorar o telefone toca de repente, era da minha casa, recebi assim a notícia: Querido, sua mãe morreu – dizia a voz de uma velha tia.
Acha que isso é notícia que se dê por telefone? Porque diabos a minha vida é tão torta? Mas agora eu com a morte de minha mãe nas mãos, não podia fazer nada a não ser chorar, e lembro que depois de adulto tive medo pela primeira vez! Era medo de continuar vivo... Era medo mesmo de sobreviver!
Por fim aquela tarde quente, onde até minha mãe parecia suar mesmo depois de morta, estava acabando.
Mas notícia ruim não acaba assim, imediatamente recebi outro telefonema (e quem foi mesmo que inventou o maldito telefone?), dessa vez era pra falar de dinheiro, eu ainda velando minha mãe e já tendo que resolver assuntos relacionados a dívidas de família.
Acordei e percebi que dormia entre cadeiras e almofadas e que em minha volta um ou dois parentes segurava a alça do caixão.
Chegará a hora, ela precisava ser enterrada, e assim terminou mais uma manhã. Estava vazio o meu coração, e eu não sabia que caminho seguir, percebi então, que estava só, mas uma solidão que já nascerá comigo, e meu coração gritou de dor e chorou em silêncio.
E somente a tarde tive sono de novo, e já estava atrasado quando acordei...
Voltei à rotina de um trabalho chato numa outra tarde quente, e pessoas sentindo pena de mim, era o pior dia da minha vida, eu sentia a onipresença, mas era um ser que eu não desejava por perto.
Dias e noites se passaram e a rotina tomava conta de minha vida, foi quando eu pensei não ter solução que algo inovador aconteceu, eu conheci o amor, encontrei no meio do nada, e para nada, era algo assim novo, eu vivia procurando, mas não sabia, e vivia esperando, mas não entendia, foi quando entre olhos brilhantes e beijo envolvente que eu percebi que ainda existia certa felicidade, nem notava mais a solidão.
Dias se passaram e depois meses, foi quando eu menos imaginei surgiu um golpe do destino, fui abandonado, era uma tarde fria e cinza, quando recebi outro telefonema, era uma gravação da secretaria eletrônica: Querido, sei que vivemos juntos esse tempo todo, e sei que nos amamos, mas agora estou amando outra pessoa, e resolvi viver esse amor bem longe dessa cidade...
Aquilo era terrível como poderia ser!
É sempre mais difícil perde, quando se tem tão pouco...
Renova-se a cada minuto com o passar dos anos através da relação jovens e velhos, é curioso imaginar como é grande a sensação de se estar perdido e como tudo se restabelece com uma simples palavra: Fé.
Dois dias antes de viajar o jovem entra em casa pega a sua arma e atira na cabeça!
Não se fala de outra coisa na pequena cidade, o sangue jorrado na parede virou atração turística.
A mãe vestia preto em forma de luto e o pai, apenas chorava.
A passagem comprada, as roupas na mala... Tudo pronto, agora a cena era de tristeza, era de dúvida, era de desespero.
O jovem de menos de 30 anos se apaixonara uma vez, pela linda Rebeca, uma prostituta, cheia de desejos secretos e anseios, com peitos fartos e um olhar penetrante.
Era uma tarde, andando pela rua, ele encontra Rebeca pela primeira vez, uma mulher fatal, foi o que imediatamente ele pensou.
Sem esperar por qualquer sinal convidou-a para um jantar, que por sua vez Rebeca recusou.
Depois de alguns minutos de insistência ela revelou a sua verdadeira profissão e lhe ofereceu os serviços por um determinado preço.
O jovem empalidecido, aceitou sem pensar, e tiveram uma bela tarde de amor.
O engraçado de tudo isso é que o jovem, ao tocar os lábios de Rebeca, sentiu-se como em muitas nuvens e Rebeca jamais teria experimentado tão doce sensação. A tarde foi perfeita, e pela primeira vez Rebeca recusou o pagamento pelos seus serviços, daí em diante era amor pleno, tudo perfeito, ele aceitava a profissão de Rebeca e a respeitava, e ela entregava-se completamente a ele, como ela nunca havia feito, depois de alguns dias Rebeca reconhecia o que era orgasmo, e sentia-se amada, e o jovem sabia que ela era perfeita.
Dias se tornaram em meses e meses em anos, e os dois quebrando preconceitos e tabus se realizavam como pessoa, o jovem que agora aprendera a lidar com os próprios medos e ciúmes, amava perdidamente Rebeca, que retribuía todo seu amor.
Eram felizes, ela ainda trabalhando e ele respeitando.
Por fim chegaram os dias próximos da tal viagem programada, seria uma nova vida, Rebeca iria com o belo jovem para outro país, e lá se casariam e teriam filhos, horas e horas passaram planejando a viagem e os nomes dos futuros filhos, Rebeca o amava mais que tudo e o jovem sabia disso.
A família, totalmente acostumada, via a moça como uma mulher a ser respeitada, e o jovem era admirado por alguns.
As passagens em mãos e as malas prontas, o jovem resolve ir ao banco, no caminho encontra uma velha amiga a qual há muitos anos não a via.
Uma mulher linda, cheia de atributos, bem diferente daquela menina que ele guardava na memória. Agora ela era uma mulher sedutora, que sabia exatamente onde queria chegar, e não escondia sua característica mais forte:
Quando deseja um homem em sua cama, sempre o tinha.
Ambos cruzam olhares e ela fatalmente o convida para um drinque e do drinque para o seu apartamento, ele totalmente seduzido aceita o convite.
Agora no caminho ele observava a boca, e suas palavras saíam como músicas, seu perfume o deixava exitado, e cada gesto dela lhe dava vontade de beijá-la.
Enfim chegaram...
Entre vinhos e gargalhadas, surge o beijo e em seguida o sexo.
Aquilo foi divino, pleno e realizador, ele se sentia desejado e deseja cada centímetro do corpo dela, nesse momento de prazer esqueceu completamente de Rebeca.
Ao voltar pra casa, reflete sobre o que aconteceu e um arrependimento iminente o ataca.
Ele não consegue perdoar a si próprio, entra em casa com lágrimas nos olhos, pega a arma que ficava guardada em uma gaveta estúpida e sem pensar em mais nada a não ser no amor que sentia por Rebeca atira em um dos ouvidos, sentindo apenas dor e remoço.
O azul é uma das três cores-luz primárias, e cor-pigmento secundária, resultado da sobreposição dos pigmentos ciano e magenta. Seu comprimento de onda é da ordem de 455 a 492 nanômetros do espectro de cores visíveis.
O azul costuma estar associado à frieza, depressão, monotonia. E, por isso mesmo, também à paz, à ordem, à harmonia. Entre os matizes, é o menos expansivo aos olhos.
O chapéu azul era o combinado! Teria que ter o chapéu com uma bela flor branca. Era seu sonho desde criança, e agora faltando dez dias para o casamento, quase tudo estava pronto, o belo vestido, as flores, os fotógrafos, a igreja...
Ela decidiu por uma igreja barroca, tudo lembrava cenário, era como se não existisse realidade, apenas um sonho. Os doces estavam encomendados, e o bolo teria um belo casal próximo de um coqueiro imitando uma praia, onde ambos passariam a lua de mel.
O tom azul sempre foi o seu sonho, era no início azul turquesa, depois azul cerúleo, logo em seguida azul cobalto, mas por fim decidiu por um azul bebê, teria lindas pedras de um azul marinho por toda volta do vestido.
Na majestade do momento tudo parecia perfeito, soava como perfeição as músicas escolhidas, a família em uma só alegria comemorava cada segundo antes do casamento, era filha única, não se imaginava outra festa naquele momento, presentes chegando a cada minuto, e o noivo já não tinha unhas de tão nervoso.
A dúvida que restava era qual chapéu usar no dia, ela já olhara tantos e gostara de vários, que a dúvida parecia pairar sobre a cabeça da noiva como um peso.
Ela decidiu!
Escolheu um chapéu!
Agora faltando nove dias, começavam a chegar visitas, todas querendo saber detalhes da festa, e a resposta era sempre a mesma, só quem podia saber era a mãe da noiva, mas mesmo a mãe da noiva não sabia qual era o chapéu que ela escolhera, uma ansiedade reinava na casa, qual seria o chapéu escolhido?
Faltando oito dias tiveram ensaio com a cerimonialista, ela por sua vez organizou tudo o que faltava, e tentou acalmar os pais, padrinhos e familiares, era uma loucura, a casa parecia mais uma pensão de tanta gente vindo almoçar, trazer presentes, e dormir...
Restavam apenas sete dias, uma semana exata e a noiva quase não conseguia dormir pensando como seria ser casada, por outro lado o noivo imaginava a tão sonhada lua de mel, ele queria ter filhos, e uma casa com dois quartos para crianças, se via levando os filhos na escola e jogando futebol! Era o sonho perfeito, constituir família com a mulher que amava.
Seis dias e pronto tudo estaria terminado, levaram quase um ano, planejado, economizando, e vendo cada detalhe.
Agora era dia de limpar a futura casa, a noiva leva sua faxineira de confiança até a casa onde os pombinhos passariam a morar assim que voltassem da lua de mel, nisso se passou mais um dia.
Parecia perto, faltavam apenas quatro dias, quando a futura esposa e seu futuro marido deixaram o trabalho e se encontraram na praça e esse dia passou bem rápido!
Faltando três dias se deram conta que as alianças precisavam ser polidas, era um corre-corre, todo mundo ligando e falando ao mesmo tempo, um monte de detalhes que parecem esperar próximo ao grande dia para aparecerem...
Somente mais dois dias e tudo enfim estaria pronto, ligaram pro cabeleireiro pra confirmar o dia da noiva, ela resolveu dormir cedo quando chegou à noite.
Faltando um dia, ela levou toda a roupa pro salão de cabeleireiro, e decidiu não receber ninguém nesse dia em sua casa, a mãe atendia cada telefonema com um sorriso que podia se ouvir do outro lado da linha.
Cada pessoa que vinha até sua casa, ela oferecia pelo menos três vezes biscoitos de nata, feito por ela mesma.
Esse dia pareceu demorar mais.
Sábado de manhã, o noivo e padrinhos iam a um determinado salão de beleza, a família da noiva em outro e a noiva seria atendida no mais renomado nome da cidade.
Chegando ao instituto tudo correu bem, não houve grandes transtornos, e faltando ainda mais de meia hora, ela já estava pronta e ajustando o belo chapéu.
A porta da igreja abre e todos de pé esperam a noiva entrar, cada detalhe da ornamentação tinha um tom diferente de azul, porém ao entrar a noiva, um murmurar sem fim começou por toda assembléia, um alvoroço tomou conta, ninguém conseguiu ouvir a marcha nupcial direito, tudo isso porque a noiva portava um belíssimo chapéu vermelho!
Vermelho escarlate, com detalhes fortes, não combinava em nada com o vestido, e muito menos com o estilo meigo da moça que portava o chapéu.
A cada passo ela sorria.
A cada passo as pessoas fofocavam entre si.
A mãe da noiva em prantos se segurava no altar, o noivo atrevia-se a comer um resto de unha, e o padre esperava ansioso para começar a cerimônia.
Irmãos, estamos aqui reunidos pela graça de Deus, pai todo poderoso...
Inicia-se todo o processo da celebração da benção e enfim o padre pergunta:
Você aceita casar-se, amá-lo e perdoá-lo, viver em harmonia, criar os filhos que Deus os reservar, proteger o lar, honrá-lo, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza até que a morte os separe?
A noiva olha profundamente nos olhos do futuro marido e responde:
- Não!
A igreja dá um grande suspiro e o alvoroço agora parece maior do que quando a noiva entrou de chapéu vermelho!
A casaé simples, tudo no seu devido lugar, uma cadeira velha, uma mesinha com a TV no canto, e alguns tapetes no chão.
A velha senhora acorda, dobra seu lençol surrado e o guarda em um armário antigo de cor desbotada, sai arrastando suas velhas sandálias de couro e arrumando o cabelo branco amarelado em forma de coque, A sutileza do toque em uma pele enrugada quase não tem efeito! Ela limpa os olhos e para em frente de um grande e escuro espelho, num quarto onde entra bem pouca luz natural e a iluminação artificial fica por conta de uma fraca lâmpada. É duvidoso como ela ainda sobrevive em tamanha miséria! Beirando seus oitenta e cinco anos, ela segue a vida numa eterna rotina, comendo o que tem na geladeira com muita deficiência, já que seus fracos músculos em baixo de uma camada extensa de pele, não sabem o que é uma alimentação saudável e nutritiva há bastante tempo. Ao sair de casa, usa seu costumeiro vestido azul, um guarda-sol, e uma bolsinha prata, passa no banco que fica próximo a sua casa e retira toda a aposentadoria mensal que recebe por falecimento do marido.
Ela leva uma vida bem modesta desde o dia da morte do coronel, ele um homem bravo, morreu em combate antes mesmo que tivessem um filho, e depois disso nunca se ouviu falar que ela amou outra pessoa na vida. A sorte era a tal aposentadoria e uma quitanda próxima de sua casa que sempre lhe doava batatas.
A rotina seguia como sempre, ao sair do banco com todo o seu dinheiro pra viver durante mais um mês, ela não volta pra casa, segue o caminho e anda por cerca de uns trinta minutos em um passo ligeiro que suspeito não ser fácil com tão frágeis pernas, enfrenta um sol castigante, mas continua firme seguindo o trajeto.
Passando mais alguns quarteirões ela entra em uma casa de troca de bens valiosos, um homem barbudo, com uma cara de desconfiado, recepciona a senhora com um tom de intimidade, e essa por sua vez tira boa parte do dinheiro da aposentadoria e entrega ao tal sujeito, que como troca entrega-lhe três moedas de ouro, o olho da senhora lacrimeja por um momento e ela guarda as moedas na bolsa prateada.
Seguindo em frente o seu caminho de volta e passando na quitanda recolhe meio quilo de batatas, um tanto murcha estavam hoje! Mas servia para o propósito.
Chegando em casa, guarda cuidadosamente em um velha mala as três moedas e leva as batatas para o fogo em uma panela com água, volta a sala, liga a TV e senta-se numa cadeira com um encosto feito de uma antiga almofada, em seu colo a maleta que guardará as três moedas.
Fica abraçada com essa maleta por alguns instantes enquanto a água das batatas começa a ferver, ela sente uma pontada no peito e seu semblante é desesperador, outra mais forte e pronto a velha senhora não sobrevive a um ataque cardíaco!
Talvez o sol, talvez a má alimentação de anos, talvez a solidão, o fato é que agora ela estava morta em sua cadeira, sua mão solta bem devagar a maleta, essa cai no chão e um som de muitas moedas tocando o frio chão se faz ouvir, toda a riqueza que a senhora conseguiu agora estava no chão em frente uma TV que falava sozinha pra um sala morta a muito tempo.
E enquanto isso as batatas ferviam na cozinha escura iluminada apenas com a chama azul do fogão.
Eu fico apavorado só em imaginar esse número, dá uma sensação de que muita coisa ficou pra trás e que não me resta muito tempo pra conquistar novos mundos, novas coisas, a minha viagem programada pra ir à lua, agora parece distante, o meu sonho de ser bombeiro e sair salvando vidas, soa como brincadeira de criança; Salvar vidas me parece coisa de televisão hoje, fico vendo do meu sofá e pedindo a Deus que eu não seja a próxima vítima, parece que o mundo cresceu junto comigo, e ficou adulto, racional, e sem piedade, parece que a economia mundial afetadiretamente no meu bolso, e que um terremoto na Europa, treme o meu apartamento, um tiro no Rio de Janeiro, também mata um pouco de minha vida;
É curioso porque antes eu só queria ir a lua, hoje eu nem me lembro quando sentei pra observá-la, eu pensava em usar vermelho e sair apagando incêndios, hoje os únicos incêndios que realmente me preocupam, eu não consigo apagar (temos fogo na Amazônia, temos Fogo em Brasília, temos fogo até na câmara do meu município) e vestir vermelho hoje significa que sou de esquerda, uma esquerda que nem sei de que lado fica mais, outra coisa que me aborrece, quando era criança, sabia direitinho onde ficava a minha mão esquerda e a direita, hoje tenho dúvidas se o que eu vejo é esquerda ou direita mesmo!
O que importa é que a cada dia que passa tenho mais certeza, aquela criança que sonhava em viajar num foguete, essa cresceu, e seu sonho é apenas sobreviver...
Uma "sobrevida" onde não cabem heróis e nem vestir vermelho...